segunda-feira, abril 03, 2006

A Lição

A Lição do Vasco.

- Explica-me os morangos.- Os morangos?
(Ele quer que eu lhe explique "os morangos"?)
- Os morangos não se explicam. Quando muito, podem descrever-se. Olha, o mesmo se passa com a saudade. Não se explica. Mas também não se compreende. E também não se descreve, porque cada um sente-a de forma diversa, mas única.
(...)
- Percebeste alguma coisa do que eu disse?
(...)
- Explica-me a saudade.
- Hum... Deixa ver...
(Porque é que ele só faz perguntas difíceis?)
- A saudade é um aperto no peito. É uma aridez. Quando sentes saudade sentes-te só.- O que é estar só?- É não ter ninguém com quem falar.- Então o meu cão está só.- O teu cão? Porquê?
(!)
- Porque não tem ninguém com quem falar.- Mas os cães não falam, ladram.- O meu cão fala. Só que eu não percebo o que ele diz porque não sei falar a língua dele. Quando for mais crescido vou para uma escola aprender. E tu, sabes falar com o meu cão?- Receio bem que não. Mal consigo comunicar com os homens, quanto mais com os cães!- Mas tu já és crescida. Não andaste na escola?- Sim, andei.- E não sabes falar com o cão?- Na escola não se aprende língua de cão.- Como é que sabes?- Porque sei. Porque não há nenhuma disciplina com esse nome.- Como é que sabes que não há nenhuma disciplina com esse nome?- Sei porque quando eu andava a estudar não havia.- Tens saudades? Da tua escola?- Tenho... Muitas.- E dos meninos?- Dos meninos também. E dos professores, dos funcionários.- Não os vês há muito tempo?- Há imenso tempo. Tanto que já nem sei.- Não te lembras?- Não.
(...)
- Então, não me explicas a saudade?- Explico.
(Explico?!)
- Mas tu disseste que a saudade não se explica.- Pois disse. Mas vou tentar explicar. Não sei se vou conseguir.- Ora tenta...- Está bem. Olha, a saudade é como uma cova na areia. O vento faz covas na areia, não faz?
(Ele confirma que sim com a cabeça.)
- Pois é, mas quem faz a cova da saudade não é o vento, é o tempo. E depois quando nós estamos na praia vamos enchendo as covas de areia com água do mar, não é?
(Novo acentimento.)
- Ora bem... Quando te recordas de uma pessoa com saudade, também enches a cova da saudade, não de água, mas com memórias, compreendes?
(Olha-me atentamente, os olhitos esbugalhados, sorvendo cada palavra minha.)
- Só que por muita água que deites na cova de areia ela nunca fica cheia, pois não?- Não, porque a água escorrega pelos grãos!- Exactamente. Com a saudade, também é assim. Tentas não esquecer a pessoa, enchendo a cova com recordações, mas as recordações também se perdem por entre os grãos de tempo...- E a cova da saudade nunca se enche.- Pois não. A cova da saudade está sempre aberta, no teu coração. Nunca consegues enchê-la, nunca consegues fechá-la. É como que uma ferida aberta.
(...)
- Bem, espero que tenhas ficado com uma ideia do que é a saudade.- Hum... Acho que fiquei. Mas posso fazer uma pergunta?- Sim, claro.- Porque é que em vez de enchermos a cova com água não enchemos com cimento? Assim o cimento não escorre pela areia e a cova fica fechada para sempre!
(Olhei-o nos olhos, com ternura.)
- Mas é claro que nós também fechamos covas de saudade com cimento! Fazemo-lo sempre que queremos selar uma parte da nossa vida, sempre que queremos colocar uma pedra sobre determinado facto da nossa existência, sobre a lembrança de certa pessoa... Fazemo-lo com grandes pazadas de cimento, energicamente, quanto mais depressa melhor. Nunca me tinha lembrado disso... Mas é totalmente verdade!
O Vasco, cinco anos, fez-me compreender o que é a saudade. Obrigou-me a dar explicações, a encontrar uma imagem, um vocabulário, fez-me teorizar.
Às vezes, é bom teorizar sobre as coisas que acontecem na nossa vida. Sabendo explicá-las, a nossa cabeça torna-se aliada do coração, porque deixa de ser só ele a sentir, para passar a ser ele - o coração - a sentir e ela - a cabeça - a entender.
Continuei a passear com o Vasco e com o cão. A manhã começou escura, mas lentamente o sol despontou e o final de tarde fez-se agradável, em tons de cor de laranja e lilás. As nuvens continuavam o seu percurso célere, graças ao vento...
- Não vamos ter com os meus pais?- Sim, claro, vamos que já é tarde.- Posso fazer só mais uma pergunta?- Podes.- Também tens uma cova, não tens?- Uma cova?- Sim, de saudade.- Tenho...
(Bolas, será vidente?)
- Mas... mas... como sabes?- Hum... é que pareces cansada. Deve ser por estares sempre a tentar enchê-la de água. Estás triste. É por não conseguires tapá-la, não é?- É.
(Silêncio constrangedor.)
- Olha, deixa lá, não chores por causa disso. Se fechasses essa cova, o tempo ou o vento ou lá o que é abria outra, não era?- Era, Vasco. O vento ou o tempo ou as pegadas dos outros, sei lá!.... Estão sempre a abrir covas no meu coração...- Eu tenho um balde de brincar na praia. Se quiseres empresto-to para encheres com água.
Obrigada, Vasco. Obrigada por quereres ajudar-me. O teu pequeno balde será fundamental, bem como são os teus pequenos olhos atentos, brilhantes, geniais. Obrigada pela lição de hoje.
- Passeamos juntos o cão amanhã?
O Vasco abraça-me, dá-me um beijo rápido e desata a correr, ladeado pelo cão, em direcção ao pai.
(Retirado do blog - Rabiscado pela Mente Assumida)

2 comentários:

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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